Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Ernesto Timor

A quoi tu joues?
Se souvenir des belles choses

Intimidade - O Corpo é o lugar da emoção

Com base na citação de Eduardo T. Hall, este trabalho tem por suporte a exploração do tema Intimidade. Esta temática abre caminhos a possíveis sub-temas, como o corpo, os relacionamentos e as emoções, optando-se, por relacionar os conceitos com alguns trabalhos de fotógrafos que, de alguma forma, tenham abordado a imagem de acordo com estes sub-temas.
A intimidade é um conceito que propõe partilhar o que deriva do interior, revelando-o ao o outro, num contexto de particular afecto e confiança, envolvendo partilha, facilitando a descoberta, por meio da abertura, do carinho e da compreensão. Surgirá, então, a presença do corpo, a construção do relacionamento e o desencadear das emoções no âmbito da intimidade, podendo o termo abranger um vasto campo de significados, ou seja, também pode ser entendido como uma partilha de pensamentos e sentimentos. A revelação daquilo que é íntimo, do que, em primeira instância, eram somente elementos solitários apenas na posse de um “eu”, transformados em denominadores comuns, agora acessíveis a um “tu”, pode gerar uma divisão, desencadeando sensações de desconforto e inconsistência, como tristeza e dor, preocupação, ansiedade, vergonha ou insegurança, motivadas pelo facto de os comportamentos íntimos envolverem vulnerabilidade interpessoal.
A intimidade pode associar-se ao corpo e, por sua vez, à interioridade, ou seja, o “interior”, como refere José Gil (1997), é o explorar do próprio corpo, ainda que possa existir alguma diferença entre cada uma destas partes, que variam como acessos mais ou menos directos, mais ou menos próximos do lugar da alma. De um modo geral, todos os orifícios da entrada do corpo levam a esse espaço indeterminável, sem contornos nem limites interiores. Assim, percebe-se como a interioridade do corpo permite definir um “inconsciente do corpo” (Metamorfoses do Corpo, 1997).
Esta reflexão parte do imaginário feminino e masculino, presente na fotografia, que desenvolve um conceito de corpo, onde tanto a imagem do homem como da mulher é explorada na sua condição humana e física, do ponto mais frágil ao mais resistente, de modo a exprimir toda a sensualidade e sexualidade. São corpos complexos traçados por dor e brutalidade, paixão ou amor, sendo as imagens apresentadas um pequeno exemplo de corpos e partes de corpos que, de algum modo, comunicam com a natureza essencial das coisas e dos seres humanos, assim como ilustram as relações mútuas. Nestas imagens, destaca-se o facto de o espaço utilizado e os enquadramentos fortificarem o detalhe, através de uma percepção visual que se caracteriza pela simplicidade e naturalidade dos corpos. Na obra de Bill Brandt, são identificáveis as sombras que circundam as formas dos modelos, como se de um espaço linear se tratasse, sem volume ou consistência. É a negação do próprio corpo, tal qual o conhecemos, que se apresenta através de vários elementos isolados, como se existissem faixas brancas a cortar e a sair do espaço interno da fotografia para o exterior. Por outro lado, na obra de Mário Cabrita Gil, os perspicazes efeitos da luz e sombra fortalecem a aparência natural do corpo humano. A estética nasce do equilíbrio, a imagem nasce da fusão da luz e da sombra. Além das múltiplas interpretações subjectivas possíveis, trata-se de uma visão particular do mundo em que os valores estéticos predominam.
Em suma, as fotografias comunicam energia física e poder espiritual, os gestos e os olhos dos modelos envolvem o observador, colocando-o dentro do espaço da fotografia, criando ficcionalmente uma ilusão de intimidade.

Donna Murty Tood